A principal vantagem de escrever reviews apenas no meu blog pessoal e em português é poder, sempre que é caso para isso, falar de uma forma mais emotiva acerca dos concertos. No caso de Andrew Bird, posso afirmar, tendo a certeza que não caio em exageros, que a música dele para mim implica todo um sentimento de amor de carácter musical. Um amor já antigo e bastante forte, que me fez ficar com lágrimas nos olhos enquanto pensava “finalmente estou em frente a ele” quando o vi entrar no palco da La Cigale, no início deste primeiro mês de Primavera.
Antes de falar de música propriamente dita, tenho obrigatoriamente de fazer dois reparos. Em primeiro lugar, a sala – La Cigale – é tão, mas tão bonita! Penso que não podia ter tido mais sorte quanto ao local deste tão esperado encontro. Em segundo lugar, fiquei também encantada com a simpatia do Andrew Bird. A forma simples e clara como começou o concerto foi muito agradável e deixou logo antever como as duas horas seguintes seriam maravilhosas. Achei cómica a tentativa inicial de falar francês, com uns tímidos “Bonsoir… Ça va?”, retomando logo em seguida o inglês.
Tal como havia sido prometido logo no início, o novíssimo Break it Yourself, lançado oficialmente no dia anterior a este concerto, foi tocado na íntegra (uma situação que foi descrita como pouco frequente, mas apropriada ao momento). Embora pelo meio deste álbum o Andrew nos cante convictamente “Made yourself invulnerable, no one can break your heart, so you break it yourself”, a verdade é que ele consegue, sem grandes delongas, quebrar corações. Aliás, o novo álbum consegue causar-me em cada audição uma estranha sensação de desconstrução, num sentido de simplificação à medida que as canções vão fluindo. Durante o próprio concerto essa sensação de completo “desarmamento” foi constante, pois a música dele é tão bonita e tão transparente que ao ouvi-la apenas consigo pensar nisso mesmo.
Não consigo decidir se gostei mais de ouvir as coisas novas ou as antigas… Por um lado, gostei muito de ouvir temas que se destacaram nas primeiras audições do Break it Yourself, como a Desperation Breeds e a Danse Caribe, pois achei que conseguem funcionar ainda melhor ao vivo. Contudo, também senti o entusiasmo geral nos primeiros acordes da Plasticies e da Fake Palindroms (a forma como ele rasgou o início da Fake Palindroms com o arco do violino foi literalmente de cortar a respiração). Apesar de tudo o resto ter sido lindo, para mim os dois momentos altos da noite foram aqueles reservados à Near Love Experience Experience e à Effigy, nos quais me senti perto, muito perto, de chorar como uma menina pequena. A Near Love Experience Experience é, tal como li algures por este mundo da internet, “uma canção maior do que a vida” – desde os assobios iniciais até ele nos cantar em falsete que “No, there’s nothing wrong, there’s nothing wrong when it starts to down”, toda a canção é perfeita. Quanto à Effigy, nem sei bem como descrever a sensação de finalmente ter o Andrew Bird fora do meu mp3 a cantar à minha frente e a apontar ora para si, ora para o infinito enquanto especulava “it could be you…. it could be me” (“Fake conversations on a nonexistent telephone…”). Tão, tão perfeito.
É incrível como perante um concerto em relação ao qual tinha expectativas já bastante elevadas, consegui ser surpreendida e completamente conquistada. Não só a música: os assobios incessantes, as expressões deliciosas enquanto cantava, a interacção fantástica com o público, o violino irrequieto, o xilofone… Com tudo isto o Andrew Bird conseguiu aumentar mais ainda o meu já enorme amor por ele. Após tantas e tantas horas, durante tantos anos, a ouvi-lo em registos digitais, foi imensamente bom tê-lo à minha frente, ali a poucos metros de distância, a cantar todos aqueles temas que já tanto haviam passeado na minha cabeça. Perto do final da noite, em resposta a mais uma explosão do público, ele deixou escapar timidamente um agradecimento, afirmando que poucos concertos eram como aquele. Perdi a vergonha e levantei a voz para lhe responder “Yeah Andrew, we know!” – efectivamente não há muitos concertos como este, nem tão pouco nenhum artista como o Andrew Bird.









